Um olhar para o lado esquerdo
- Rubia Konstantyni

- 21 de out. de 2022
- 1 min de leitura
Está ali a voar. Faz certo barulho o movimento. Trabalha com afinco, produz fármaco importante. Toca, com sutileza, as flores – essência vital. Já as flores, se abrem para recebe-la. É um espalhar de cheiros e sons esses encontros entre eu e flores.
Outro dia me perguntaram se queria ser outra coisa, se a raiva me tomava por ter tão pouco tempo de vida. Mas que outra espécie tem a minha sorte? De poder me aconchegar em pétalas ou folhas? Quem, em seu ofício diário, compõe alimento e pode curar? Parece-me que o pouco deste jeito é muito, bestagem querer mais. Ah, mas e o valor nenhum que te dão? Ouvi dia desses. Tento não ligar, finjo bem, sigo o voo, beijo, abraço, proseio e pouso um pouco mais adiante, de novo, sigo o voo. Polinizo e sonho, sonho e polinizo. Morro e pronto.
Quem resistiria a um bom néctar? Eu não. Falem o que quiser, assanhada, língua solta, barulhenta, irritante, perigosa, coletiva. Deixa falar, ela só continua perambulando pelo mundo, adocicando colmeias.


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